sexta-feira, 25 de março de 2011

Pesquisas de grupo

CONTARDO CALIGARIS



Queremos ver as crianças felizes e jocosas. Portanto, nós preferimos emburrecê-las a aborrecê-las



FRANCISCO, 8, anuncia: "Preciso fazer uma pesquisa para um projeto de grupo sobre a China".
Encarregado das ilustrações, Francisco "pesquisa" no Google Imagens.
A impressora está em pane; alguém leva Francisco e seu pen-drive para a casa da tia, a qual interrompe seu jantar para imprimir os arquivos.
Em menos tempo (e sem mobilização familiar), Francisco poderia ter memorizado três boas páginas sobre a China, seus costumes, sua história etc.
Há 20 anos, como pai, padrasto, professor e terapeuta, sou perseguido pelas "pesquisas de grupo".
A moda do trabalho escolar em grupo evoca, aos meus ouvidos, a fala de colegas que, nos anos 70, improvisavam grupos terapêuticos. Os tempos são duros, eles diziam, e o paciente pagará a metade do que custa uma sessão individual.
De fato, a terapia de grupo não é uma espécie de excursão de ônibus (mais barata para os turistas e mais rentável para o cicerone): ao contrário, ela é uma forma específica de terapia, na qual a dinâmica do grupo mobiliza aspectos da subjetividade que seriam de acesso e manejo árduos numa terapia individual.
Ou seja, na terapia de grupo, a existência do grupo permite algo que aconteceria mais dificilmente numa terapia individual.
Será que o mesmo não deveria valer para os trabalhos em grupo nas escolas? O trabalho em grupo só se justificaria se ele permitir que o aluno tenha uma experiência diferente, mais rica da que é proporcionada pelo trabalho individual.
Alguns dirão que isso é o que acontece: o trabalho em grupo promove uma socialização que é crucial para a criança. Poderia responder que um pouco de solidão garante o silêncio necessário para que o aluno desenvolva uma vida interior.
Mas a questão é esta: quantos professores têm a competência e o entusiasmo pedagógicos necessários para propor um trabalho de grupo que não seja apenas uma excursão mais barata por ser de ônibus?
Também faz 20 anos que ouço crianças anunciando que seu dever de casa é uma "pesquisa" - nas enciclopédias, nas revistas, nos livros dos pais, nas bibliotecas, na internet e no Google.
Ora, procurar uma palavra num dicionário, numa enciclopédia ou no Google, é, justamente, uma procura -não é uma pesquisa.
Ler dez, 20 ou mesmo 50 livros sobre um tema não é pesquisar, é apenas se informar e estudar.
Se, a partir dessas leituras, alguém costurar uma nova interpretação dos fatos, essa engenharia do pensamento será suficiente para um trabalho de conclusão de curso, para uma dissertação de mestrado e até para uma tese de doutorado, mas ainda não será propriamente pesquisa.
Fazer pesquisa significa produzir (ou almejar produzir) um saber novo, inédito.
Imaginemos que Francisco, depois de passear pelo Google, leia dez livros sobre a visão da China pelos primeiros que viajaram para lá.
Isso seria estudo, não pesquisa. Agora imaginemos que, ao longo dessas leituras, ele se pergunte quais relatos de primeiros viajantes fossem conhecidos por Marco Polo.
Francisco poderia ir a Veneza e vasculhar a Biblioteca Marciana ou o Archivo di Stato até encontrar o testamento de Marco Polo, no qual o explorador talvez tivesse listado seus livros mais preciosos.
Essa, sim, seria uma pesquisa (aviso, para evitar viagens inúteis: o testamento de Marco Polo já foi encontrado há tempos).
Resta a pergunta: por que diabos, aparentemente, gostamos de convencer nossas crianças de que uma procura no Google seria pesquisa?
Por que diabos encorajamos trabalhos em grupo que são apenas maneiras de dividir as tarefas e minimizar o esforço? Por que, em geral, exigimos cada vez menos de nossas crianças?
A resposta usual (e certeira) é a seguinte: amamos nossas crianças como continuações de nós mesmos. Para compensar nossas frustrações, queremos vê-las continuamente saltitantes e jocosas. Portanto, preferimos emburrecê-las a aborrecê-las.
Mas é preciso completar essa resposta. Amamos as crianças porque elas poderão corrigir nossa vida quando não estivermos mais aqui.
É impossível que esse tipo de amor não seja contaminado por uma ambivalência, pois a vida futura das crianças é o símbolo de nossa mortalidade.
Nossa inveja (mais ou menos raivosa) pode, por exemplo, expressar-se assim: tudo bem, as crianças nos sobreviverão, só que a sua vida será inculta e chata -bem-feito, quem mandou não morrer com a gente?

sexta-feira, 4 de março de 2011

Dia Internacional da Conscientização sobre o Ruído

Um dia de aula em Harvard

Stephen Kanitz

Jamais esquecerei o meu primeiro dia de aula na Harvard Business School. No
dia anterior recebemos 90 páginas descrevendo três problemas administrativos
que haviam ocorrido anos atrás em empresas verdadeiras.

Tínhamos 24 horas para tomar uma série de decisões, utilizando as mesmas
informações disponíveis da diretoria da época. Era um problema por matéria,
3 matérias por dia.

O primeiro caso do dia tratava-se de uma empresa controlada por dois irmãos,
bem sucedida por trinta anos, até o dia em que um deles se desquitou e casou
com uma moça vinte anos mais jovem.

Esse pequeno fato desencadeou uma série de problemas que afetava o
desempenho da empresa. Nós éramos os consultores que teriam de sugerir uma
saída.

No primeiro dia, na primeira aula, o professor entrou na sala e simplesmente
disse:

- Sr. Kanitz, qual é a sua recomendação para esse caso?

- Por que eu?

As aulas a que eu estava acostumado em toda a minha vida de estudante
consistiam num bando de alunos ouvindo pacientemente um professor que
dominava as nossas atenções pelo resto do dia.

Simplesmente, naquele fatídico dia, eu não estava preparado quando todos
viraram suas atenções para mim - e, pelo jeito, eu é que teria de dar a
aula.

Esse sistema é conhecido por ensino centrado no aluno e não no professor.
Tanto é que, minha grande frustração foi ter os melhores professores de
administração do mundo, mas que ficavam na maioria das aulas, simplesmente
calados.

Curiosamente, falar em aula era uma obrigação, e não o que em geral acontece
em muitas escolas secundárias brasileiras, em que essa atitude é passível de
punição.

Outra descoberta chocante foi constatar, que a maioria dos famosos livros de
administração de nada serviam para resolver aquele caso. Nenhum capítulo de
Michael Porter trata especificamente de 'problemas de desquites em empresas
familiares', um fato mais comum nas empresas do que se imagina.

A maioria das decisões na vida é de problemas que ninguém teve que enfrentar
antes, e sem literatura pré-estabelecida.

Estamos sozinhos no mundo com nossos problemas pessoais e empresariais. Quão
mais fácil foi a minha vida de estudante no Brasil, quando a obrigação
acadêmica era decorar as teorias do passado de Keynes, Adam Smith e Peter
Drucker, como se fossem livros de auto-ajuda para os problemas do futuro.

Durante dois anos, estudamos mais de 1.000 casos ou problemas dos mais
variados tipos: desde desquites, brigas entre o departamento de marketing e
o financeiro, greves, governos incompetentes, fusões, cisões, falências e
até crises na Ásia.

Isto nos obrigava a observar, destilar as informações relevantes, ignorar as
irrelevantes, ponderar as contradições, trabalhar com vinte variáveis ao
mesmo tempo, testar alternativas, formar uma decisão e expô-la de forma
clara e coerente.

Estavam ensinando por meio de uma metodologia inédita na época (1972), o que
poucas escolas e faculdades fazem até hoje: ensinar a pensar.

Em nada adianta ficar ensinando como outros grandes cérebros do passado
pensavam. Em nada adianta copiar soluções do passado e achar que elas se
aplicam ao presente.

Num mundo cada vez mais mutável, onde as inter-relações nunca são as mesmas,
ensinar fatos e teorias será de pouca utilidade para o administrador ou
economista de hoje.

Ensinar a pensar também não é tão fácil assim. Não é um curso de lógica, nem
uma questão de formar uma visão crítica do mundo achando que isto resolve a
questão. Sair criticando o mundo, contestando as teorias do passado forma
uma geração de contestadores que nada constrói, que nada sugere.

Minha recomendação ao jovem de hoje é para que se concentre em uma das
competências mais importantes para o mundo moderno: aprender a pensar e a
tomar decisões.

Link:
http://blog.kanitz.com.br/2011/03/um-dia-de-aula-em-harvard-.html?utm_source=feedblitz&utm_medium=FeedBlitzEmail&utm_campaign=0&utm_content=550671
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