terça-feira, 13 de julho de 2010


Revista Pátio
Ano VII - Nº 27 - Dilemas Práticos dos Professores - Agosto à Outubro 2003
Entrevista
António Nóvoa
"Os professores estão na mira de todos os discursos. São o alvo mais fácil a abater"

Ser professor é o mais impossível e o mais necessário de todos os ofícios. Quem afirma é o educador português António Nóvoa, vice-reitor da Universidade de Lisboa. Doutor em Educação e catedrático da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa, Nóvoa preside a Associação Internacional de História da Educação e é bastante conhecido dos professores brasileiros, que costumam lotar suas conferências. "Ser professor implica um corpo-a-corpo permanente com a vida dos outros e com a nossa própria vida. Implica um esforço diário de reflexão e de partilha", diz Nóvoa nesta entrevista, concedida à Pátio por e-mail pouco antes de vir ao Brasil para participar do Congresso Internacional sobre Avaliação na Educação, em Curitiba, e do II Congresso de Educação do Marista de Salvador, ambos em julho. Ao longo da conversa, fica clara a importância que António Nóvoa atribui à cooperação e ao intercâmbio nas escolas para o exercício do impossível e necessário ofício de professor. "Ninguém é professor sozinho, isolado. A formação exige partilha. A atividade docente necessita de dispositivos de acompanhamento", afirma. Esta e outras idéias são discutidas a seguir, com a lucidez e a clareza que caracterizam o pensamento de António Nóvoa.

Pátio - Estão acontecendo reformas educacionais em vários países do mundo. Como o senhor vê essas reformas e qual a possibilidade de elas terem efeitos duradouros em uma instituição como a escola, que é sabidamente resistente a mudanças?
António Nóvoa - Vivemos em uma sociedade do espetáculo e do consumo. A mídia dramatiza os debates educativos, por vezes até o limite do insuportável, e impõe-nos idéias feitas, rankings, classificações e hierarquias que servem aos propósitos de uma relação consumista com a escola. Os alunos e as famílias são vistos como "clientes" que devem proteger os seus interesses. É uma atitude legítima, pois, quando não há um projeto coletivo coerente, prevalecem os interesses individuais. Porém, é uma atitude que condena, a longo prazo, a concepção da educação como um "bem comum". Muitas reformas educacionais atuais são portadoras dessa "educação bancária", uma nova versão daquela que há tempos foi denunciada por Paulo Freire. Agora, não é tanto a relação professor-aluno que está em causa, mas sim a relação escola-família. Na minha opinião, é bom resistir a essas mudanças.Temos tendência para encarar a mudança como um "valor positivo". Infelizmente, muitas vezes muda-se para pior! A educação exige grande serenidade e bom senso. Não podemos correr atrás da primeira moda!

Pátio - O que lhe parece que seria necessário em uma "mudança para melhor"?
Nóvoa - São três os aspectos que me parecem centrais na refundação da escola: uma nova organização do trabalho escolar, uma nova relação com o espaço cultural e uma nova concepção do conhecimento. Quero referir-me, em primeiro lugar, à necessidade de adotarmos formas inovadoras de trabalho, quebrando a rigidez tradicional do "modelo escolar" e desenvolvendo práticas de diferenciação pedagógica, de redefinição dos espaços e tempos letivos, de gestão integrada dos ciclos de aprendizagem, de reconceitualização do currículo. Em segundo lugar, quero salientar a importância de repensar o lugar da escola, já não como um "templo do saber", recolhido e isolado da sociedade, mas como uma "peça" (uma peça importante, mas apenas uma peça!) de um espaço cultural habitado por saberes e instituições que devem tomar parte ativa no esforço de educar e de formar. Por último, quero chamar a atenção para a urgência de romper com concepções excessivamente "clássicas" do conhecimento, abrindo o currículo à contemporaneidade (cultural, artística, científica, tecnológica) e favorecendo a reflexão crítica sobre o próprio saber.

Nada disso é novo. Há muito que sabemos o que é preciso fazer. Agora, é preciso ter a coragem de fazer. Não é uma questão de boas intenções. É uma questão de vontade e de competência.

Pátio - Hoje em dia, fala-se muito em profissionalização dos professores. O que é preciso para se efetivar realmente essa profissionalização?
Nóvoa - Os professores estão na mira de todos os discursos. São o alvo mais fácil a abater. No passado, construíram uma imagem social respeitada: eles detinham as chaves da mobilidade social e o prestígio do saber. Hoje, há meios mais eficazes de promoção na sociedade, e o saber (ou, ao menos, a informação) expandiu-se um pouco por toda a parte. Os professores ressentiram-se dessa dupla perda e têm dificuldade em reconstruir uma nova identidade profissional. São estes, a meu ver, os dois dilemas da profissionalização dos professores.

O século XX assistiu a um interesse sem precedentes pela educação da infância e da juventude. O que era assunto de alguns - os professores - passou a ser preocupação de todos. Foi uma transformação importantíssima. Contudo, no caso do ensino, ela ajudou a fomentar a ilusão de que as tarefas docentes podiam ser desempenhadas por qualquer um. Definir um lugar profissional específico em um campo socialmente tão saturado é uma missão quase impossível.

Pátio - Quais as competências necessárias a essa profissionalização?
Nóvoa - Mais do que elaborar uma "lista de competências" (conceito controverso, aliás!), importa insistir em três pontos: primeiro, na necessidade de uma sólida formação inicial, que dote os professores de um bom repertório teórico e metodológico; segundo, na importância de acompanhar os jovens professores, permitindo-lhes um tempo de transição, de aprendizagem do ethos e das rotinas da profissão; terceiro, no caráter decisivo de uma integração em um grupo docente que, no quadro de projetos de escola, promova uma atitude de formação, de reflexão e de inovação.

Pátio - Significa dar ao professor uma maior valorização dentro da escola?
Nóvoa - Sem dúvida. Muitas vezes, centramos a nossa energia no primeiro tempo da formação (a formação inicial) e esquecemos os outros dois tempos. Por um lado, o tempo "curto" de transição entre a formação e a profissão, isto é, os primeiros anos de exercício profissional, que são, talvez, os mais decisivos na vida de um professor. Muito do nosso futuro como professores joga-se nesse período de contato com a realidade escolar e profissional. É aqui que os jovens professores mais necessitam de apoio, de um acompanhamento próximo dos colegas experientes, de um espaço de debate e de diálogo que os ajude a se integrarem na profissão. Por outro lado, o tempo "longo" do nosso percurso profissional, vivido dentro de escolas que têm de ser, elas próprias, lugares de formação. É por isso que me parece tão importante reorganizar as escolas como espaços de aprendizagem cooperativa, onde os professores possam ir formando-se em um diálogo e em uma reflexão com os colegas. Ninguém é professor sozinho, isolado. A formação exige partilha. A atividade docente necessita de dispositivos de acompanhamento.

Pátio - O professor pode ensinar e, ao mesmo tempo, ser um pesquisador?
Nóvoa - Quando falo de acompanhamento, quero referir-me a um acompanhamento dialógico, à inscrição na rotina profissional de hábitos de discussão e de reflexão. Inevitavelmente, estamos falando do "professor como pesquisador". É um debate difícil, pois está marcado por duas resistências muito fortes. Por um lado, a crítica daqueles que consideram que "a ciência começa onde o senso comum acaba" e que, portanto, não aceitam a possibilidade de um pensamento reflexivo baseado na experiência. Por outro lado, a suspeição contida em um velho provérbio chinês - "a experiência é uma lanterna que trazemos às costas e que apenas ilumina o caminho já percorrido" - que chama a atenção para a dificuldade de inovar a partir da experiência. Essas duas "resistências" têm sentido. É preciso cuidado para não transformar a pesquisa em mera reprodução do senso comum ou da tradição. Mas, hoje em dia, é impossível desperdiçar a experiência e, sobretudo, a reflexão sobre a experiência.

Pátio - Qual a saída?
Nóvoa - É aqui que entra um novo conceito de pesquisa. O conhecimento do professor depende de uma reflexão prática e deliberativa. Depende, por um lado, de uma reelaboração da experiência a partir de uma análise sistemática das práticas. É essa análise sistemática que permite evitar as armadilhas de uma mera reprodução de idéias feitas. Depende, por outro lado, de um esforço de deliberação, de escolha e de decisão que passa por uma intencionalidade de sentidos. A reflexão e a decisão pertencem a duas ordens distintas. E uma não conduz, inevitavelmente, à outra. É essa intencionalidade que permite virar a "lanterna da experiência" para frente, de forma que ilumine o presente e o futuro, e não apenas o passado...

Pátio - O que é necessário para que isso aconteça?
Nóvoa - Nos últimos anos, vulgarizou-se o conceito de "transposição didática" para falar do ato de ensinar. Pessoalmente, parece-me mais adequado falar de "transposição deliberativa", uma vez que a ação do professor depende de um trabalho de deliberação, na dupla perspectiva da "reflexão" e da "decisão". Ora, esse trabalho de deliberação exige uma atitude de pesquisa que tem uma dimensão individual (de reflexão de cada um sobre a sua própria experiência) e uma dimensão coletiva (de confronto da nossa reflexão com o olhar dos outros, em particular dos outros colegas). O que exige, sem dúvida, condições de trabalho e de exercício profissional que, muitas vezes, não existem nas nossas escolas. Exige, além disso, uma ligação mais íntima entre o espaço escolar e o espaço universitário. O que exige, por último, um esforço de formalização e de escrita. A pesquisa passa sempre por uma prática de escrita que ajuda à formalização de um saber específico, à sua partilha e ao reconhecimento social de um dado grupo profissional. Escrever é um dos modos mais eficazes de transformar a experiência em conhecimento. Por isso, é tão importante que os professores assumam uma palavra escrita.

Pátio - De que forma o uso de materiais multimídia na sala de aula tem sido um dos propulsores das reformas? O professor está preparado para trabalhar nesta sociedade da informação?
Nóvoa - Podemos dizer que, hoje em dia, ninguém está preparado para trabalhar nesta "sociedade da informação", com um volume absurdo de informação ao alcance de toda a gente e uma desatualização permanente dos conhecimentos. Há dias, ouvi um conceituado cientista dizer: "Eu sei que 50% dos conhecimentos que ensino nas minhas aulas estão ultrapassados. O meu problema é que não sei identificar a metade que está ultrapassada e a metade que não está".

Os trabalhos de Manuel Castells sobre a Galáxia Internet são muito interessantes para compreender a importância de adquirir "uma capacidade intelectual de aprender a aprender ao longo da vida, recuperando a informação que está digitalmente armazenada e utilizando-a para produzir conhecimento". Como ele diz, estamos diante de uma mudança radical: "antes de começarmos a mudar a tecnologia, a reconstruir as escolas e a voltar a formar os professores, necessitamos de uma pedagogia nova, baseada na interatividade, na personalização e no desenvolvimento de uma capacidade autônoma para aprender e para pensar". Este é um dos grandes desafios do futuro para os professores.

No entanto, não vale a pena entrarmos em uma agitação frenética e anunciar todos os dias uma "revolução tecnológica". Fornecer os instrumentos de cultura, desenvolver metodologias de tratamento da informação, aprender a organizar o seu próprio trabalho ou elaborar formas de comunicação verbal e escrita são, desde o princípio do século XX, algumas das principais preocupações inscritas nas melhores experiências pedagógicas. O patrimônio histórico dos professores é a melhor garantia do seu futuro. Tudo se passa, é certo, em um novo ambiente social e tecnológico. Mas não façamos disso um bicho-de-sete-cabeças.

Pátio - É possível priorizar o afeto, a formação integral, quando os professores trabalham com turmas grandes, que precisam ser "controladas" e que devem mostrar resultados?
Nóvoa - Eu vou dizer duas coisas sobre o afeto e a formação integral que os educadores, de um modo geral, não gostam de ouvir. Peço que tentem ler historicamente as minhas palavras.

O afeto é um elemento central de qualquer processo de aprendizagem. Não é possível aprender sem uma dimensão de risco, de passagem do desconhecido para o conhecido, de esforço pessoal, de aventura. E tudo isso necessita de um suporte afetivo, de uma rede de afetos. Porém, a função da escola não é primordialmente afetiva. John Dewey disse isso há muito tempo. Mais do que uma "comunidade", onde as pessoas se escolhem e a vida coletiva é baseada em afetos, a escola deve ser uma "sociedade", isto é, um lugar onde se aprendem as regras da vida em comum, onde se trabalha com objetivos bem definidos, onde se procura que cada um vá o mais longe possível no seu desenvolvimento. Philippe Meirieu explicou-o muito bem ao falar dos "jovens em dificuldade", ao dizer que o problema principal que eles enfrentam não é uma "ausência de comunidade", mas sim uma "ausência de sociedade": "não conseguimos construir com eles a possibilidade de aceder a uma relação de respeito mútuo, de escuta mútua, de colaboração mútua em um lugar que não é, primordialmente, um lugar afetivo, um lugar de dominação de um guru qualquer, um lugar onde a personalidade individual se esbate no seio de manifestações tribais coletivas".

A formação integral é, juntamente com a autonomia, o conceito-chave da pedagogia moderna. Ninguém duvida da importância de formar a pessoa na sua inteireza. As recentes descobertas das neurociências reconfortam-nos na impossibilidade de separar a consciência, as emoções e o sentimento. Pensamos com o corpo e sentimos com a inteligência. Mas a idéia de formação integral conheceu alguns desvios totalitários, que nos levaram a confundir a condição privada e a condição pública do educando, acabando por tudo querer controlar. A crença na formação de um "homem novo" situa-nos na fronteira do intolerável. E a autonomia quantas vezes não foi além daquela anunciada por Rousseau: "O aluno só deve fazer o que quer. Mas só deve querer o que vocês querem que ele faça. Não deve dar um passo sem que vocês o tenham previsto. Não deve abrir a boca sem que vocês saibam o que ele vai dizer".

Pátio - Isso coloca em xeque algumas das principais convicções pedagógicas.
Nóvoa - É verdade. Não podemos continuar a repetir, sem um olhar crítico, idéias que fundaram a pedagogia moderna, mas que hoje precisam ser repensadas. E, no entanto, também eu concordo que é preciso "colocar os afetos dentro da inteligência", também eu defendo que "só na autonomia e pela autonomia é que se realiza uma verdadeira educação". Todavia, precisamos ir mais longe nessa reflexão. Quanto às "turmas grandes", mencionadas na pergunta anterior, pouco posso dizer. É muito difícil responder a questões que se prendem à falta de condições para uma escola de qualidade. Podemos lamentar. Podemos dizer que há colegas que, em condições idênticas, fazem verdadeiros milagres. Podemos explicar a necessidade de recorrer a certas técnicas e métodos de ensino. Mas é uma conversa um pouco redonda... Temos uma responsabilidade como educadores. Ninguém dirá que os milhares de cientistas que dedicaram sua vida à procura de uma cura para o câncer são todos uns incompetentes e malsucedidos. Na ciência, é possível não ter resultados, pelo menos a curto e médio prazos. Na educação, não é. É verdade que a aprendizagem não se decreta. E que não podemos obrigar ninguém a aprender. Porém, essa constatação não reduz em nada a nossa responsabilidade de ensinar. É o compromisso com a educação de todas as crianças que nos dignifica como educadores e dá sentido à nossa profissão.

Pátio - Do seu ponto de vista, quais os desafios para o professor do século XXI e como enfrentá-los?
Nóvoa - Poderia responder de muitas maneiras e todas imperfeitas. Falarei apenas de três desafios: a lucidez, a coerência e a abertura.

O professor trabalha em uma sociedade em permanente mudança, atravessada por conflitos e dilemas difíceis de resolver. O pensamento dicotômico não traz nenhuma solução: Educação ou instrução? Aprendizagem ou ensino? Desenvolvimento da pessoa ou aquisição do conhecimento? Liberdade ou autoridade? Métodos ou conteúdos? Interesse ou esforço? O drama do professor é a impossibilidade de optar por um ou por outro desses termos, pois o ato educativo só se completa quando eles se encontram e se transformam em um só. O primeiro desafio do professor é o desafio da lucidez. Ele deve possuir os instrumentos para uma análise séria e informada, que lhe permita encontrar, em colaboração com os seus colegas, as soluções mais adequadas para educar todas as crianças.

As sociedades atuais têm leituras muito complexas, e os professores são chamados a desempenhar inúmeras tarefas e missões. Por vezes, sonhamos com uma escola calma e tranqüila, freqüentada por alunos disciplinados e movidos por um enorme desejo de aprender. Contudo, este é um retrato idílico da escola, o qual não corresponde de forma alguma à realidade. Hoje, os professores necessitam não só de uma formação bastante sólida, mas também de dispositivos de acompanhamento e de reflexão. É isso que lhes permite responder ao desafio da coerência, não reagindo de modo avulso à panóplia de solicitações (de métodos novos, de técnicas, de projetos, de iniciativas, de tecnologias, etc.), mas mantendo uma grande serenidade baseada em um modo pessoal, único, de serem professores.

Freqüentemente, as escolas são espaços fechados ao mundo, fechados às novas realidades sociais, fechados à ciência, à arte, à cultura. Os professores reconfortam-se, por vezes, na imagem da escola-recolhimento, da escola como espaço afastado do mundo onde as crianças possam crescer como crianças. É uma imagem que também eu gosto de partilhar. Mas ela não é contraditória com o desafio da abertura, com a necessidade de trazer a contemporaneidade para dentro das escolas. Em uma sociedade que se quer do conhecimento, as escolas não podem ser "instituições fossilizadas" e têm de participar das "redes" e das "teias" que tecem o nosso século.

Ser professor implica um corpo-a-corpo permanente com a vida dos outros e com a nossa própria vida. Implica um esforço diário de reflexão e de partilha. Implica acreditar na educabilidade de todas as crianças e construir os meios pedagógicos para concretizá-la. Será por isso que Freud lhe chamou o ofício impossível? Provavelmente. Ser professor é o mais impossível e o mais necessário de todos os ofícios.

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