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terça-feira, 8 de novembro de 2011
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Quem precisa de remédio?
Para especialistas, a banalização dos diagnósticos – como hiperatividade e dislexia – e da medicalização ajuda indústria farmacêutica e esconde má qualidade do ensino
Por: João Correia Filho e Cida de Oliveira
Publicado em 14/10/2011
Se tivesse nascido nos últimos dez anos, o Menino Maluquinho, personagem do cartunista Ziraldo, criado em 1980, poderia ser diagnosticado como hiperativo, ou portador de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). É muito provável também que lhe fosse receitado medicamento à base de metilfenidato, como Ritalina, para controlar sua agitação e impulsividade – exatamente como acontece hoje com crianças com comportamento semelhante.
Transtornos neurológicos como esse têm sido cada vez mais diagnosticados no Brasil. Segundo a Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA), entre 3% e 5% das crianças em todo o mundo sofrem do distúrbio, cujos principais sintomas são falta de concentração, impulsividade, ansiedade e dificuldade de planejar tarefas a longo prazo.
Coincidência ou não, a venda de Ritalina cresceu 1.615% só na década passada, segundo o Instituto de Defesa dos Usuários de Medicamentos. O Brasil é o segundo maior consumidor da droga no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Dados da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, por exemplo, apontam a venda de 150 mil unidades do medicamento na capital paulista apenas nos primeiros cinco meses deste ano, compondo uma média mensal quase duas vezes maior que a do ano passado. Os números alimentam uma polêmica que envolve a indústria farmacêutica, põe em xeque pesquisas científicas e divide médicos e psicólogos.
A professora Maria Aparecida Moysés, do Departamento de Pediatria da Universidade de Campinas (Unicamp), vê com reservas esse aumento dos diagnósticos. “Os laboratórios financiam parte das pesquisas e apoiam entidades que dão aval a tais conclusões”, denuncia a pediatra, uma das pioneiras na luta contra a medicalização no Brasil. O movimento conta com a crescente adesão de médicos, psicólogos e outros profissionais da saúde, como a equipe do Programa de Atenção à Adolescência do Centro de Saúde Escola Samuel Barnsley Pessoa, ligado à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
A médica sanitarista Mariana Arantes Nasser, coordenadora do programa, afirma que é um exagero transformar comportamentos diferentes do padrão imposto em doença, passível de medicação e de acompanhamento excessivo com psicólogos, fonoaudiólogos e outros profissionais. E vai além: “A Ritalina, muito prescrita a crianças pequenas, não foi estudada o suficiente quanto aos efeitos a longo prazo. Ou seja, nem sabemos se a doença existe mesmo e usamos um remédio que nem sabemos se é seguro a longo prazo”.

A sanitarista explica que a medicalização é preocupante também porque estigmatiza. “Não é fácil para uma pessoa que tem um comportamento considerado diferente ser taxada de doente por um profissional da área, principalmente um médico. É como ser chamada de anormal. A saúde tem de transformar a realidade, e não o contrário”, ressalta.
Do outro lado da polêmica, o psiquiatra Antonio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), considera o aumento de casos diagnosticados do transtorno uma decorrência do maior acesso da população à informação sobre as doenças e do conhecimento dos sintomas por pais e professores. “Quanto mais precoce o diagnóstico, o tratamento começa mais cedo e é mais fácil curar. Por que esperar o problema se agravar para tratar?”, questiona. “É como o caso do doente cardíaco. Vamos esperar que ele tenha um infarto para só então tratar?”, compara.
Segundo Silva, o avanço da medicina permite ao médico identificar sintomas que diferenciam o transtorno de hiperatividade de outras doenças, tratando de maneira adequada e segura, com medicamento específico, associado ou não a psicoterapia. O distúrbio é reconhecido como doença pela Organização Mundial da Saúde e em alguns países, como os Estados Unidos, portadores são protegidos por lei que garante tratamento diferenciado na escola.
Para a psicóloga Maria Inez Ocaña de Luca, da ABD, não há exagero no aumento do número de diagnósticos de dislexia e hiperatividade, e sim um grande equívoco na interpretação dos dados. “Trata-se de descobertas recentes, conhecidas no Brasil a partir da década de 1980. É óbvio que houve um crescimento vertiginoso desses números, pois antes ninguém conhecia tais transtornos. Nosso trabalho foi esclarecer e ajudar a identificá-los, o que fez com que começassem a aparecer mais casos.” A psicóloga afirma também que o número de diagnósticos de dislexia já começa a diminuir. Segundo ela, atualmente cerca de 50% dos casos que passam pela ABD são encaminhados para outros tratamentos ao serem identificados sintomas de hiperatividade, autismo, deficiência mental leve e problemas auditivos.

Maria Inez diz que na maioria das vezes os pais estão envolvidos no tratamento e são os primeiros a perceber se um medicamento está fazendo bem para seu filho – “pois eles acompanham suas reações na escola e em casa”. Ela aposta ainda na fiscalização feita por órgãos responsáveis pelo controle dos procedimentos médicos a possíveis casos de abuso.
Outro ponto levantado por ela é que diagnósticos de dislexia e de hiperatividade são “banalizadas e empregadas indiscriminadamente” toda vez que a criança não aprende ou não consegue se concentrar na aula. “É mais comum do que se imagina a criança ser encaminhada ao posto de saúde já com um bilhete da escola ‘diagnosticando’ que é disléxica ou hiperativa. E, assim, os alunos já são estigmatizados sem questionamento à forma ou ao processo de aprendizagem. Parece que virou moda ter esse tipo de transtorno”, critica Marilene.
Logo que diagnosticado como portador do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, aos 5 anos, Gabriel foi transferido de escola. “Ele não se interessava pelas aulas, não acompanhava o ritmo da turma, desligava, viajava mesmo”, conta a publicitária Gabrielle Chimento Massarão, mãe do garoto. Ela optou por uma escola com proposta pedagógica diferenciada, que permite que a criança tenha maior autonomia e faça mais experimentações, adotou a medicina antroposófica, modificou a alimentação e o comportamento de toda a família. “Decidimos não tratá-lo com medicamentos como a Ritalina. Em vez disso, assumimos o problema e estamos ajudando o Gabriel a melhorar”, diz. A nova escola despertou o interesse do garoto, que evoluiu no aprendizado. Os “apagões”, segundo a mãe, diminuíram.
Maria Inez Ocaña, da ABD, afirma que, para evitar equívocos, os casos de dislexia só devem ser atestados depois de uma varredura feita por psicólogos, fonoaudiólogos, neurologistas e mais uma série de profissionais de saúde que acompanham o paciente. “Eliminamos todos os outros fatores que podem causar o problema de aprendizagem, como deficiências auditivas, na visão e até mesmo transtornos como o TDAH, que pode acompanhar a dislexia e agravar o quadro. Além disso, há um acompanhamento da situação escolar e familiar dos diagnosticados”, pondera a psicóloga.
Atualmente, laudos de dislexia servem como aval para que jovens tenham tratamento diferenciado em escolas e até mesmo no vestibular. C.S.A. (que pede para não se identificar), reprovado várias vezes em vestibulares, depois de um laudo médico que comprovava sofrer de dislexia obteve a autorização de algumas instituições para fazer seu exame de forma diferenciada – com mais tempo para as provas e com a presença de alguém que lê as questões e auxilia na conferência dos gabaritos. Com esses recursos, ele foi aprovado em várias universidades públicas importantes, como Unesp, USP e UFMG. Optou pelo curso de Geologia na Unesp de Rio Claro (SP).
No entanto, segundo Maria Aparecida Moysés, não faltam casos em que diagnósticos de dislexia e de TDAH são prejudiciais. Aos 12 anos, Marcelo (nome fictício) consultou-se com um neurologista num momento em que ia muito mal na escola. Depois de dois anos de medicação com Ritalina, a família descobriu que ele havia tido problemas de atraso no crescimento, o que lhe causava dificuldades até para fazer atividades físicas, uma de suas grandes paixões. Um acompanhamento psicológico mais aprofundado revelou que o adolescente deixava os estudos em segundo plano porque desejava ser jogador de futebol. Em acordo com seus pais, prometeu se esforçar para terminar o ensino fundamental desde que pudesse se dedicar ao esporte. Parou com os medicamentos, concluiu os estudos e hoje, aos 14 anos, joga num time de futebol de sua cidade. Nunca mais foi medicado.
Nos últimos anos, a discussão também entrou na esfera política. Atualmente tramita um grande número de projetos de lei para a educação, nos âmbitos municipal, estadual e federal, a propor que o tratamento e o diagnóstico de distúrbios de aprendizagem ocorram no interior das escolas públicas.
No município de São Paulo, por exemplo, tramita na Câmara dos Vereadores um projeto criado pelo Programa de Apoio ao Aluno Portador de Distúrbios Específicos de Aprendizagem. “A aprovação da lei representará um retrocesso significativo no enfrentamento das dificuldades de escolarização de nossas crianças e adolescentes. Isso porque reduz os problemas educacionais a uma suposta patologia do indivíduo, desconsiderando todo um contexto social e as consequências de gravíssimos problemas de estrutura e funcionamento de nosso sistema de ensino”, argumenta um manifesto difundido pelo Conselho Regional de Psicologia e assinado por dezenas de entidades do setor.
A pesquisadora Marilene Proença, também autora de diversos trabalhos sobre o tema, considera que esse tipo de projeto não melhora a qualidade da escola e reforça ações paliativas. “Desvirtua-se a ideia da escola de qualidade como direito de todos, e o direito passa a ser o de ter um diagnóstico”, critica.
Maria Aparecida Moysés, da Unicamp, vai mais longe. Considera que os critérios usados são frágeis: “É inquestionável que existam doenças reais, que existam problemas de saúde que podem interferir no desenvolvimento afetivo e cognitivo de uma criança, mas faltam critérios claros”, analisa. “A dislexia, por exemplo, é definida como uma dificuldade de aprendizagem de origem neurológica, que afetaria a fluência correta na leitura. Para diagnosticá-la, os principais instrumentos utilizados são provas de leitura e escrita, o que impossibilita a diferenciação entre pessoas mal alfabetizadas e pessoas com uma doença neurológica de fato.”
Segundo a pediatra, entre os próprios médicos não há unanimidade sobre a existência desses distúrbios, ou seja, a dislexia e o TDAH ainda não foram comprovados cientificamente, sendo questionados no interior da própria medicina em todo o mundo. No site da ABDA, o psiquiatra Paulo Mattos defende a existência do TDAH de forma contundente: “Quando você ouve alguém dizer que TDAH é uma doença inventada, por mais eloquente que seja o autor dessa opinião, sem qualquer base científica, ou mesmo a sua titulação – a incapacidade e leviandade sempre foram democráticas: também acometem médicos, psicólogos etc. –, pesquise sobre a veracidade e a origem do que está sendo dito”.
Outro ponto em questão são os efeitos colaterais provocados por medicamentos que têm o metilfenidato como princípio ativo. A ABDA argumenta que “os mais comuns são inapetência, insônia, irritação gástrica e dores de cabeça, que ocorrem numa minoria de pacientes e, quando ocorrem, tendem a desaparecer em poucos dias ou semanas. Não há efeitos colaterais ‘perigosos’, como tonteiras, taquicardia etc.”.
A pediatra Maria Aparecida Moysés lembra, entretanto, que na própria bula da Ritalina são listados efeitos colaterais como febre alta, dor no peito, batimento cardíaco acelerado, garganta inflamada e espasmos musculares. “Isso já seria o suficiente para ter muito cuidado ao receitar”, afirma. “Muitas vezes o fato de uma criança medicada estar mais quieta pode ser considerado pelos pais e pela escola como um sinal de que está reagindo bem, está mais concentrada. Mas pode estar ocorrendo o que chamamos na farmacologia de efeito zumbi, ou seja, as crianças ficam paradas, contidas, como se estivessem quimicamente amordaçadas.”
O fato é que não se pode desprezar o risco de haver um transtorno ou distúrbio que afete o aprendizado. Tampouco o ambiente social e educacional da criança pode ser precipitadamente isento de responsabilidades. Qualquer que seja o desdobramento de um caso, identificar uma dificuldade e buscar o diagnóstico correto exigem um esforço coletivo que vai até a procura por especialistas de áreas diversas. Porém começa com o empenho dos pais.
Transtornos neurológicos como esse têm sido cada vez mais diagnosticados no Brasil. Segundo a Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA), entre 3% e 5% das crianças em todo o mundo sofrem do distúrbio, cujos principais sintomas são falta de concentração, impulsividade, ansiedade e dificuldade de planejar tarefas a longo prazo.
Coincidência ou não, a venda de Ritalina cresceu 1.615% só na década passada, segundo o Instituto de Defesa dos Usuários de Medicamentos. O Brasil é o segundo maior consumidor da droga no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Dados da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, por exemplo, apontam a venda de 150 mil unidades do medicamento na capital paulista apenas nos primeiros cinco meses deste ano, compondo uma média mensal quase duas vezes maior que a do ano passado. Os números alimentam uma polêmica que envolve a indústria farmacêutica, põe em xeque pesquisas científicas e divide médicos e psicólogos.
A professora Maria Aparecida Moysés, do Departamento de Pediatria da Universidade de Campinas (Unicamp), vê com reservas esse aumento dos diagnósticos. “Os laboratórios financiam parte das pesquisas e apoiam entidades que dão aval a tais conclusões”, denuncia a pediatra, uma das pioneiras na luta contra a medicalização no Brasil. O movimento conta com a crescente adesão de médicos, psicólogos e outros profissionais da saúde, como a equipe do Programa de Atenção à Adolescência do Centro de Saúde Escola Samuel Barnsley Pessoa, ligado à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
A médica sanitarista Mariana Arantes Nasser, coordenadora do programa, afirma que é um exagero transformar comportamentos diferentes do padrão imposto em doença, passível de medicação e de acompanhamento excessivo com psicólogos, fonoaudiólogos e outros profissionais. E vai além: “A Ritalina, muito prescrita a crianças pequenas, não foi estudada o suficiente quanto aos efeitos a longo prazo. Ou seja, nem sabemos se a doença existe mesmo e usamos um remédio que nem sabemos se é seguro a longo prazo”.
Não é fácil para uma pessoa que tem um comportamento considerado diferente ser taxada de doente

A sanitarista explica que a medicalização é preocupante também porque estigmatiza. “Não é fácil para uma pessoa que tem um comportamento considerado diferente ser taxada de doente por um profissional da área, principalmente um médico. É como ser chamada de anormal. A saúde tem de transformar a realidade, e não o contrário”, ressalta.
Do outro lado da polêmica, o psiquiatra Antonio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), considera o aumento de casos diagnosticados do transtorno uma decorrência do maior acesso da população à informação sobre as doenças e do conhecimento dos sintomas por pais e professores. “Quanto mais precoce o diagnóstico, o tratamento começa mais cedo e é mais fácil curar. Por que esperar o problema se agravar para tratar?”, questiona. “É como o caso do doente cardíaco. Vamos esperar que ele tenha um infarto para só então tratar?”, compara.
Segundo Silva, o avanço da medicina permite ao médico identificar sintomas que diferenciam o transtorno de hiperatividade de outras doenças, tratando de maneira adequada e segura, com medicamento específico, associado ou não a psicoterapia. O distúrbio é reconhecido como doença pela Organização Mundial da Saúde e em alguns países, como os Estados Unidos, portadores são protegidos por lei que garante tratamento diferenciado na escola.
Epidemia?
Transtorno que dificulta a aprendizagem da leitura e da escrita, a dislexia também tem crescimento nas notificações. Conforme a Associação Brasileira de Dislexia (ABD), entre 5% e 17% da população mundial sofre desse mal que, assim como a hiperatividade, tem origem genética. No entanto, para muitos especialistas, essa estimativa é suspeita. “Na medicina, é absurdo pensar em porcentagens tão altas para um problema genético, quando o normal são taxas como 1 por 10 mil, 1 por 100 mil, 1 por milhão. Se reais, esses números indicariam que estamos diante de uma verdadeira epidemia de distúrbios com origem cromossômica”, analisa Maria Aparecida Moysés, da Unicamp.Para a psicóloga Maria Inez Ocaña de Luca, da ABD, não há exagero no aumento do número de diagnósticos de dislexia e hiperatividade, e sim um grande equívoco na interpretação dos dados. “Trata-se de descobertas recentes, conhecidas no Brasil a partir da década de 1980. É óbvio que houve um crescimento vertiginoso desses números, pois antes ninguém conhecia tais transtornos. Nosso trabalho foi esclarecer e ajudar a identificá-los, o que fez com que começassem a aparecer mais casos.” A psicóloga afirma também que o número de diagnósticos de dislexia já começa a diminuir. Segundo ela, atualmente cerca de 50% dos casos que passam pela ABD são encaminhados para outros tratamentos ao serem identificados sintomas de hiperatividade, autismo, deficiência mental leve e problemas auditivos.
C.S.A. tem dislexia. Precisou de um laudo para fazer provas do vestibular de forma diferenciada e passou em várias universidades

Maria Inez diz que na maioria das vezes os pais estão envolvidos no tratamento e são os primeiros a perceber se um medicamento está fazendo bem para seu filho – “pois eles acompanham suas reações na escola e em casa”. Ela aposta ainda na fiscalização feita por órgãos responsáveis pelo controle dos procedimentos médicos a possíveis casos de abuso.
Escola ruim
O aumento do diagnóstico do TDAH e dislexia, segundo profissionais, pode ainda maquiar problemas sociais e a queda da qualidade do ensino. “Tornou-se mais fácil pôr a culpa num distúrbio ou num transtorno do que enfrentar a baixa qualidade de ensino, principalmente nas séries iniciais. Hoje em dia, se uma criança é desatenta na escola ou em casa corre o risco de ser diagnosticada como hiperativa. Se ela não lê nem escreve nos primeiros anos de escolarização, já corre o risco de ser taxada de disléxica”, afirma Marilene Proença Rebello de Souza, professora do Instituto de Psicologia da USP.Outro ponto levantado por ela é que diagnósticos de dislexia e de hiperatividade são “banalizadas e empregadas indiscriminadamente” toda vez que a criança não aprende ou não consegue se concentrar na aula. “É mais comum do que se imagina a criança ser encaminhada ao posto de saúde já com um bilhete da escola ‘diagnosticando’ que é disléxica ou hiperativa. E, assim, os alunos já são estigmatizados sem questionamento à forma ou ao processo de aprendizagem. Parece que virou moda ter esse tipo de transtorno”, critica Marilene.
Logo que diagnosticado como portador do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, aos 5 anos, Gabriel foi transferido de escola. “Ele não se interessava pelas aulas, não acompanhava o ritmo da turma, desligava, viajava mesmo”, conta a publicitária Gabrielle Chimento Massarão, mãe do garoto. Ela optou por uma escola com proposta pedagógica diferenciada, que permite que a criança tenha maior autonomia e faça mais experimentações, adotou a medicina antroposófica, modificou a alimentação e o comportamento de toda a família. “Decidimos não tratá-lo com medicamentos como a Ritalina. Em vez disso, assumimos o problema e estamos ajudando o Gabriel a melhorar”, diz. A nova escola despertou o interesse do garoto, que evoluiu no aprendizado. Os “apagões”, segundo a mãe, diminuíram.
Varredura
Para Marilene Proença, o excesso de diagnósticos remete ao começo do século 20, quando teorias da psicologia atribuíam a distúrbios cerebrais as dificuldades de aprendizagem, isentando problemas sociais e educacionais. “Nosso maior desafio não é apenas diagnosticar crianças, e sim lutar pela melhoria da qualidade da escola.”Maria Inez Ocaña, da ABD, afirma que, para evitar equívocos, os casos de dislexia só devem ser atestados depois de uma varredura feita por psicólogos, fonoaudiólogos, neurologistas e mais uma série de profissionais de saúde que acompanham o paciente. “Eliminamos todos os outros fatores que podem causar o problema de aprendizagem, como deficiências auditivas, na visão e até mesmo transtornos como o TDAH, que pode acompanhar a dislexia e agravar o quadro. Além disso, há um acompanhamento da situação escolar e familiar dos diagnosticados”, pondera a psicóloga.
Atualmente, laudos de dislexia servem como aval para que jovens tenham tratamento diferenciado em escolas e até mesmo no vestibular. C.S.A. (que pede para não se identificar), reprovado várias vezes em vestibulares, depois de um laudo médico que comprovava sofrer de dislexia obteve a autorização de algumas instituições para fazer seu exame de forma diferenciada – com mais tempo para as provas e com a presença de alguém que lê as questões e auxilia na conferência dos gabaritos. Com esses recursos, ele foi aprovado em várias universidades públicas importantes, como Unesp, USP e UFMG. Optou pelo curso de Geologia na Unesp de Rio Claro (SP).
No entanto, segundo Maria Aparecida Moysés, não faltam casos em que diagnósticos de dislexia e de TDAH são prejudiciais. Aos 12 anos, Marcelo (nome fictício) consultou-se com um neurologista num momento em que ia muito mal na escola. Depois de dois anos de medicação com Ritalina, a família descobriu que ele havia tido problemas de atraso no crescimento, o que lhe causava dificuldades até para fazer atividades físicas, uma de suas grandes paixões. Um acompanhamento psicológico mais aprofundado revelou que o adolescente deixava os estudos em segundo plano porque desejava ser jogador de futebol. Em acordo com seus pais, prometeu se esforçar para terminar o ensino fundamental desde que pudesse se dedicar ao esporte. Parou com os medicamentos, concluiu os estudos e hoje, aos 14 anos, joga num time de futebol de sua cidade. Nunca mais foi medicado.
Nos últimos anos, a discussão também entrou na esfera política. Atualmente tramita um grande número de projetos de lei para a educação, nos âmbitos municipal, estadual e federal, a propor que o tratamento e o diagnóstico de distúrbios de aprendizagem ocorram no interior das escolas públicas.
No município de São Paulo, por exemplo, tramita na Câmara dos Vereadores um projeto criado pelo Programa de Apoio ao Aluno Portador de Distúrbios Específicos de Aprendizagem. “A aprovação da lei representará um retrocesso significativo no enfrentamento das dificuldades de escolarização de nossas crianças e adolescentes. Isso porque reduz os problemas educacionais a uma suposta patologia do indivíduo, desconsiderando todo um contexto social e as consequências de gravíssimos problemas de estrutura e funcionamento de nosso sistema de ensino”, argumenta um manifesto difundido pelo Conselho Regional de Psicologia e assinado por dezenas de entidades do setor.
A pesquisadora Marilene Proença, também autora de diversos trabalhos sobre o tema, considera que esse tipo de projeto não melhora a qualidade da escola e reforça ações paliativas. “Desvirtua-se a ideia da escola de qualidade como direito de todos, e o direito passa a ser o de ter um diagnóstico”, critica.
Gabriel foi diagnosticado com transtorno de déficit de atenção. Gabrielle mudou o filho de escola, reviu a alimentação e o comportamento da família
Peleja científica
Segundo a pediatra, entre os próprios médicos não há unanimidade sobre a existência desses distúrbios, ou seja, a dislexia e o TDAH ainda não foram comprovados cientificamente, sendo questionados no interior da própria medicina em todo o mundo. No site da ABDA, o psiquiatra Paulo Mattos defende a existência do TDAH de forma contundente: “Quando você ouve alguém dizer que TDAH é uma doença inventada, por mais eloquente que seja o autor dessa opinião, sem qualquer base científica, ou mesmo a sua titulação – a incapacidade e leviandade sempre foram democráticas: também acometem médicos, psicólogos etc. –, pesquise sobre a veracidade e a origem do que está sendo dito”.
Outro ponto em questão são os efeitos colaterais provocados por medicamentos que têm o metilfenidato como princípio ativo. A ABDA argumenta que “os mais comuns são inapetência, insônia, irritação gástrica e dores de cabeça, que ocorrem numa minoria de pacientes e, quando ocorrem, tendem a desaparecer em poucos dias ou semanas. Não há efeitos colaterais ‘perigosos’, como tonteiras, taquicardia etc.”.
A pediatra Maria Aparecida Moysés lembra, entretanto, que na própria bula da Ritalina são listados efeitos colaterais como febre alta, dor no peito, batimento cardíaco acelerado, garganta inflamada e espasmos musculares. “Isso já seria o suficiente para ter muito cuidado ao receitar”, afirma. “Muitas vezes o fato de uma criança medicada estar mais quieta pode ser considerado pelos pais e pela escola como um sinal de que está reagindo bem, está mais concentrada. Mas pode estar ocorrendo o que chamamos na farmacologia de efeito zumbi, ou seja, as crianças ficam paradas, contidas, como se estivessem quimicamente amordaçadas.”
O fato é que não se pode desprezar o risco de haver um transtorno ou distúrbio que afete o aprendizado. Tampouco o ambiente social e educacional da criança pode ser precipitadamente isento de responsabilidades. Qualquer que seja o desdobramento de um caso, identificar uma dificuldade e buscar o diagnóstico correto exigem um esforço coletivo que vai até a procura por especialistas de áreas diversas. Porém começa com o empenho dos pais.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Estudantes ou pacientes?
Raiana Ribeiro - 10/10/11
Por que as crianças não aprendem? É essa a pergunta que tem movido centenas de pesquisadores, educadores, famílias e autoridades a entenderem o fracasso escolar e a buscarem soluções para um dos maiores problemas da educação brasileira atualmente.
Falta de inteligência, problemas psicológicos, biológicos, afetivos, pobreza e desnutrição. Em teoria, essas explicações perderam sentido na década de 80, quando as dificuldades na aprendizagem deixaram de ser vistas como uma questão exclusiva dos alunos e passaram a ser analisadas à luz de todo o processo de escolarização. Em teoria.
O que se tem visto nos últimos dez anos é o retorno das explicações biológicas para justificar defasagens no aprendizado. A chamada medicalização da educação é definida por especialistas de educação, psicologia e pediatria como um processo que transforma questões coletivas e sociais em questões individuais e biológicas, mais especificamente, em doença.
Nessa perspectiva, os estudantes que apresentam problemas contínuos para ler, escrever, ouvir, calcular, se concentrar e até obedecer são diagnosticados como portadores de algum “transtorno” de aprendizagem e precisam de tratamento. Estudos recentes afirmam que até 17% da população mundial seria disléxica e que cerca de 5% das crianças no mundo seria portadora de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperativismo (TDAH), de acordo com a Associação Brasileira de Dislexia (ABD) e a Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA).
Veja também:
-Para psicóloga, crianças não devem ser culpadas pelo fracasso escolar
Os transtornos ligados à educação já catalogados e mais conhecidos hoje são o TDAH – que se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade; Transtorno de Leitura (Dislexia) – que envolve as áreas da leitura, escrita e soletração; Transtorno da Expressão Escrita (Disortografia) – ligado à escrita e comumente associado à dislexia; Discalculia – relacionado à matemática e suas operações; e Transtorno de Oposição Desafiadora (TOD) – caracterizado pela desobediência e comportamento hostil.
Segundo Maria Aparecida Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e fundadora do Fórum de Estudos sobre Medicalização de Crianças e Adolescentes, “a medicalização vem ocorrendo no mundo todo, em escala crescente e em todas as instâncias da vida, mas as áreas que têm sofrido mais violentamente esse processo é a educacional e a do comportamento”.
“Quando um problema coletivo é medicalizado, isenta-se de responsabilidades todas as instâncias que respondem por esse problema, a começar pelas autoridades, instituições e as próprias famílias, e localiza-se o problema no indivíduo. A medicalização tende a acalmar conflitos e esse é um dos motivos pelos quais ela se dissemina tanto”, analisa a docente.
Em seus estudos, Maria Aparecida revela que, no Brasil, a medicalização na educação surgiu antes mesmo da constituição das escolas como conhecemos. Na primeira década do século XX, a cidade de São Paulo possuía apenas 14 salas de aula, sem espaço escolar propriamente dito, mas já vigorava o serviço de higiene escolar.
“Ele era instituído com profissionais contratados e que diziam como deveria ser a escola (que naquele momento ainda não existia), as carteiras, etc. E mais: advertindo que, quando as crianças pobres começassem a estudar, se não houvesse uma atenção médica adequada, elas não conseguiriam aprender”, acrescenta.
Como funciona
O fenômeno da medicalização começa em sala de aula. O professor, após meses de trabalho, detecta uma dificuldade constante do aluno em aprender o que é transmitido por ele. Dispersão, leitura insatisfatória e escrita com graves erros são queixas comuns. Durante uma reunião de pais, os problemas são comunicados aos responsáveis.
A essa altura, geralmente o estudante já carrega o estigma de “aluno problema” entre os colegas de turma e demais professores e deve, seguindo recomendações da escola, procurar ajuda especializada. Aflitos porque o filho não aprende, os pais buscam profissionais que possam diagnosticar onde, afinal, reside a falha dessa criança.
Para a psicóloga Beatriz de Paula Souza, que é pesquisadora do Laboratório Interinstitucional de Estudos e Pesquisas em Psicologia Escolar e Educacional (LIEPPE), do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), “instaura-se, nesse momento, uma situação coletiva de sofrimento”. A criança sofre porque não aprende, os pais porque não sabem o que fazer e os professores por verem, na prática, seu trabalho não se concretizar.
Beatriz relata que, até pouco tempo, 100% dos estudantes que eram encaminhados a ela, por meio do Serviço de Atendimento à Queixa Escolar, oferecido pelo Instituto de Psicologia da USP, chegavam com “suspeitas” ou laudos de transtornos.
Falta de provas
Os diagnósticos dos supostos transtornos de aprendizagem são feitos por meio de análise clínica. Porém, relatos cada vez mais comuns apontam que meia hora de conversa no consultório é suficiente para se chegar a um dessas doenças. Caso a investigação de TDAH siga o caminho recomendado será aplicado o questionário denominado SNAP-IV.
Construído a partir do Manual de Diagnóstico e Estatística (DSM-IV) da Associação Americana de Psiquiatria, esse sistema classificatório deve levar em consideração a duração, freqüência e intensidade dos sintomas. Analisa-se também a presença dos mesmos transtornos em pais e irmãos, já que o TDAH é considerado hereditário.
Veja também:
- Genes ligados ao transtorno de atenção ainda são mistério
No caso da dislexia, o recomendado é que a criança possua, pelo menos, dois anos de escolarização. Antes disso, ela pode ser avaliada apenas como uma criança “de risco”. Acontece que os trabalhos que defendem a existência dos transtornos já apresentam estudos associando essas doenças. Pesquisas afirmam, por exemplo, que até 50% dos disléxicos possuam também TDAH.
Maria Aparecida diz que até hoje “não foi comprovada a existência de uma doença neurológico-psiquiátrica que comprometa a aprendizagem”. Para ela, esse fenômeno da “psiquiatrização” dos problemas educacionais ilustra, na verdade, a falta de capacidade da escola e da família em lidar com as novas formas com que crianças e jovens se relacionam com o mundo. “Sem falar nos interesses comerciais que estão por trás”, aponta.
Diagnóstico
“A chegada do diagnóstico de ‘transtorno’ é um alívio porque a família finalmente descobre a causa e, logo em seguida, uma cura para o problema”, afirma Maria Aparecida. A pediatra é, ao lado da professora titular da Faculdade de Educação da Unicamp, Cecília Collares, uma das principais estudiosas da Medicalização no Brasil.
Cecília inclui no campo dos aliviados o professor. “O não aprendizado é a negação do seu trabalho. Quando se descobre que isso não se dá por incompetência sua, mas por um problema do aluno, ele fica aliviado.”
A pedagoga acredita que melhores condições de trabalho, autonomia e formação são essenciais para garantir um bom trabalho pedagógico. “Os professores se dividem entre aulas no estado e na prefeitura, fazem formações a distância, os salários são uma vergonha. Como esperar que eles deem conta dessa realidade?” Para ela, “é preciso encontrar soluções pedagógicas para o fracasso escolar”.
Com o diagnóstico de “transtorno” em mãos, a criança dá início a um tratamento. Para os portadores de TDAH, os remédios receitados têm como princípio ativo o Cloridrato de Metilfenidato, conhecido popularmente como Ritalina. Essa substância atua como estimulante cerebral e promete ser a cura para os principais sintomas do transtorno.
Comercializado pelos laboratórios Janssen-Cilag (com o nome de Concerta®) e Novartis (como Ritalina®), o remédio é conhecido como droga da obediência por provocar o chamado “efeito zumbi-like”, que deixa a pessoa parada, contida. Segundo Maria Aparecida, “tudo isso é sinal de toxicidade. O remédio é dado para a criança ficar parada porque está incomodando.”
As reações são inúmeras e graves. Vão desde sonolência ou insônia, passando por alucinações e, em situações extremas, psicose e comportamento suicida. Como outras drogas anfetaminosas, pode causar dependência. De fato, um trabalho do Centro de Estudo sobre Ciência Genética, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, mostra que de 30% a 50% dos jovens em clínicas de tratamento para dependentes de droga relatam o uso abusivo de Ritalina.
“O que tem acontecido é que os jovens param de tomar o remédio escondido dos pais, porque se sentem muito mal”, afirma Maria Aparecida a partir de sua experiência com jovens diagnosticados com TDAH.
Políticas Públicas
O aumento na venda de caixas de Ritalina em farmácias saltou de 71 mil, no ano 2000, para 2 milhões em 2010, posicionando o Brasil como segundo na lista de consumidores do produto, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos (IDUM).
Esse dado não é suficiente para entender o fenômeno, já que a legislação brasileira ainda obriga a apresentação de receita médica para a compra de remédios tarja preta. Para funcionar, a indústria opera em sinergia, de um lado, com as associações de suporte aos pacientes e familiares, oferecendo cursos de “atualização” e “capacitação” aos professores e, de outro, apostando na criação de políticas públicas que garantam por lei o diagnóstico nas escolas e o tratamento na rede de saúde.
Seis estados já possuem projetos de lei ligados aos “transtornos” de aprendizagem. São eles: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Acre e Piauí. Outros nove – Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Bahia, Minas Gerais, Paraná, Ceará e Goiás – têm propostas tramitando em suas respectivas Assembleias Legislativas.
“Os projetos de lei costumam ter três formatos. Um deles pede a contratação de pessoal da saúde pela educação, para fazer diagnósticos. O outro tipo dispõe sobre a realização do tratamento na própria escola. E há mais um que tenta garantir condições diferentes para realização de avaliações e testes. Esses três tipos correm no Brasil inteiro e são os mesmos. Só muda o nome do político que apresenta e a sigla do partido”, relata Cecília.
Fonte: http://portal.aprendiz.uol.com.br/2011/10/10/alunos-ou-pacientes/
Falta de inteligência, problemas psicológicos, biológicos, afetivos, pobreza e desnutrição. Em teoria, essas explicações perderam sentido na década de 80, quando as dificuldades na aprendizagem deixaram de ser vistas como uma questão exclusiva dos alunos e passaram a ser analisadas à luz de todo o processo de escolarização. Em teoria.
O que se tem visto nos últimos dez anos é o retorno das explicações biológicas para justificar defasagens no aprendizado. A chamada medicalização da educação é definida por especialistas de educação, psicologia e pediatria como um processo que transforma questões coletivas e sociais em questões individuais e biológicas, mais especificamente, em doença.
Nessa perspectiva, os estudantes que apresentam problemas contínuos para ler, escrever, ouvir, calcular, se concentrar e até obedecer são diagnosticados como portadores de algum “transtorno” de aprendizagem e precisam de tratamento. Estudos recentes afirmam que até 17% da população mundial seria disléxica e que cerca de 5% das crianças no mundo seria portadora de Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperativismo (TDAH), de acordo com a Associação Brasileira de Dislexia (ABD) e a Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA).
Veja também:-Para psicóloga, crianças não devem ser culpadas pelo fracasso escolar
Os transtornos ligados à educação já catalogados e mais conhecidos hoje são o TDAH – que se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade; Transtorno de Leitura (Dislexia) – que envolve as áreas da leitura, escrita e soletração; Transtorno da Expressão Escrita (Disortografia) – ligado à escrita e comumente associado à dislexia; Discalculia – relacionado à matemática e suas operações; e Transtorno de Oposição Desafiadora (TOD) – caracterizado pela desobediência e comportamento hostil.
Segundo Maria Aparecida Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e fundadora do Fórum de Estudos sobre Medicalização de Crianças e Adolescentes, “a medicalização vem ocorrendo no mundo todo, em escala crescente e em todas as instâncias da vida, mas as áreas que têm sofrido mais violentamente esse processo é a educacional e a do comportamento”.
“Quando um problema coletivo é medicalizado, isenta-se de responsabilidades todas as instâncias que respondem por esse problema, a começar pelas autoridades, instituições e as próprias famílias, e localiza-se o problema no indivíduo. A medicalização tende a acalmar conflitos e esse é um dos motivos pelos quais ela se dissemina tanto”, analisa a docente.
Em seus estudos, Maria Aparecida revela que, no Brasil, a medicalização na educação surgiu antes mesmo da constituição das escolas como conhecemos. Na primeira década do século XX, a cidade de São Paulo possuía apenas 14 salas de aula, sem espaço escolar propriamente dito, mas já vigorava o serviço de higiene escolar.
“Ele era instituído com profissionais contratados e que diziam como deveria ser a escola (que naquele momento ainda não existia), as carteiras, etc. E mais: advertindo que, quando as crianças pobres começassem a estudar, se não houvesse uma atenção médica adequada, elas não conseguiriam aprender”, acrescenta.
Como funciona
O fenômeno da medicalização começa em sala de aula. O professor, após meses de trabalho, detecta uma dificuldade constante do aluno em aprender o que é transmitido por ele. Dispersão, leitura insatisfatória e escrita com graves erros são queixas comuns. Durante uma reunião de pais, os problemas são comunicados aos responsáveis.
A essa altura, geralmente o estudante já carrega o estigma de “aluno problema” entre os colegas de turma e demais professores e deve, seguindo recomendações da escola, procurar ajuda especializada. Aflitos porque o filho não aprende, os pais buscam profissionais que possam diagnosticar onde, afinal, reside a falha dessa criança.
Para a psicóloga Beatriz de Paula Souza, que é pesquisadora do Laboratório Interinstitucional de Estudos e Pesquisas em Psicologia Escolar e Educacional (LIEPPE), do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), “instaura-se, nesse momento, uma situação coletiva de sofrimento”. A criança sofre porque não aprende, os pais porque não sabem o que fazer e os professores por verem, na prática, seu trabalho não se concretizar.
Beatriz relata que, até pouco tempo, 100% dos estudantes que eram encaminhados a ela, por meio do Serviço de Atendimento à Queixa Escolar, oferecido pelo Instituto de Psicologia da USP, chegavam com “suspeitas” ou laudos de transtornos.
Falta de provas
Os diagnósticos dos supostos transtornos de aprendizagem são feitos por meio de análise clínica. Porém, relatos cada vez mais comuns apontam que meia hora de conversa no consultório é suficiente para se chegar a um dessas doenças. Caso a investigação de TDAH siga o caminho recomendado será aplicado o questionário denominado SNAP-IV.
Construído a partir do Manual de Diagnóstico e Estatística (DSM-IV) da Associação Americana de Psiquiatria, esse sistema classificatório deve levar em consideração a duração, freqüência e intensidade dos sintomas. Analisa-se também a presença dos mesmos transtornos em pais e irmãos, já que o TDAH é considerado hereditário.
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No caso da dislexia, o recomendado é que a criança possua, pelo menos, dois anos de escolarização. Antes disso, ela pode ser avaliada apenas como uma criança “de risco”. Acontece que os trabalhos que defendem a existência dos transtornos já apresentam estudos associando essas doenças. Pesquisas afirmam, por exemplo, que até 50% dos disléxicos possuam também TDAH.

A Associação Brasileira de Dislexia (ABD) tem como missão "atuar para que os disléxicos e os portadores de distúrbios de aprendizagem se transformem em cidadãos produtivos, evitando a marginalização dos mesmos, quer da educação formal, quer do mercado de trabalho.

A Associação Brasileira do Déficit de Atenção tem como missão "divulgar informações científicas sobre o TDAH, capacitar profissionais de saúde e educação, oferecer suporte através de grupos de apoio e orientações aos portadores e seus familiares".
“A chegada do diagnóstico de ‘transtorno’ é um alívio porque a família finalmente descobre a causa e, logo em seguida, uma cura para o problema”, afirma Maria Aparecida. A pediatra é, ao lado da professora titular da Faculdade de Educação da Unicamp, Cecília Collares, uma das principais estudiosas da Medicalização no Brasil.
Cecília inclui no campo dos aliviados o professor. “O não aprendizado é a negação do seu trabalho. Quando se descobre que isso não se dá por incompetência sua, mas por um problema do aluno, ele fica aliviado.”
A pedagoga acredita que melhores condições de trabalho, autonomia e formação são essenciais para garantir um bom trabalho pedagógico. “Os professores se dividem entre aulas no estado e na prefeitura, fazem formações a distância, os salários são uma vergonha. Como esperar que eles deem conta dessa realidade?” Para ela, “é preciso encontrar soluções pedagógicas para o fracasso escolar”.
Com o diagnóstico de “transtorno” em mãos, a criança dá início a um tratamento. Para os portadores de TDAH, os remédios receitados têm como princípio ativo o Cloridrato de Metilfenidato, conhecido popularmente como Ritalina. Essa substância atua como estimulante cerebral e promete ser a cura para os principais sintomas do transtorno.
Comercializado pelos laboratórios Janssen-Cilag (com o nome de Concerta®) e Novartis (como Ritalina®), o remédio é conhecido como droga da obediência por provocar o chamado “efeito zumbi-like”, que deixa a pessoa parada, contida. Segundo Maria Aparecida, “tudo isso é sinal de toxicidade. O remédio é dado para a criança ficar parada porque está incomodando.”
As reações são inúmeras e graves. Vão desde sonolência ou insônia, passando por alucinações e, em situações extremas, psicose e comportamento suicida. Como outras drogas anfetaminosas, pode causar dependência. De fato, um trabalho do Centro de Estudo sobre Ciência Genética, da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, mostra que de 30% a 50% dos jovens em clínicas de tratamento para dependentes de droga relatam o uso abusivo de Ritalina.
“O que tem acontecido é que os jovens param de tomar o remédio escondido dos pais, porque se sentem muito mal”, afirma Maria Aparecida a partir de sua experiência com jovens diagnosticados com TDAH.
Políticas Públicas
O aumento na venda de caixas de Ritalina em farmácias saltou de 71 mil, no ano 2000, para 2 milhões em 2010, posicionando o Brasil como segundo na lista de consumidores do produto, atrás apenas dos Estados Unidos, segundo o Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos (IDUM).
Esse dado não é suficiente para entender o fenômeno, já que a legislação brasileira ainda obriga a apresentação de receita médica para a compra de remédios tarja preta. Para funcionar, a indústria opera em sinergia, de um lado, com as associações de suporte aos pacientes e familiares, oferecendo cursos de “atualização” e “capacitação” aos professores e, de outro, apostando na criação de políticas públicas que garantam por lei o diagnóstico nas escolas e o tratamento na rede de saúde.

Site da ABDA informa que tem apoio dos laboratórios que fabricam medicamentos para o tratamento de TDAH.
“Os projetos de lei costumam ter três formatos. Um deles pede a contratação de pessoal da saúde pela educação, para fazer diagnósticos. O outro tipo dispõe sobre a realização do tratamento na própria escola. E há mais um que tenta garantir condições diferentes para realização de avaliações e testes. Esses três tipos correm no Brasil inteiro e são os mesmos. Só muda o nome do político que apresenta e a sigla do partido”, relata Cecília.
Fonte: http://portal.aprendiz.uol.com.br/2011/10/10/alunos-ou-pacientes/
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
terça-feira, 11 de outubro de 2011
terça-feira, 30 de agosto de 2011
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18:11 - segunda-feira, 29 de agosto de 2011 | |
| A fonoaudióloga da Secretaria Municipal da Saúde, Robianca Munaretti, foi agraciada com a certificação de melhor trabalho científico apresentado durante a II Jornada das Clínicas de Saúde, intitulada "Clínica Ampliada: Um Olhar Além da Técnica". O evento foi realizado pelo Hospital de Aeronáutica de Canoas e Robianca recebeu o Prêmio Clínicas de Saúde Major Brigadeiro Francisco Lombardi, do Diretor do HACO, Coronel Médico João Carlos Rodrigues de Azeredo. O trabalho da fonoaudióloga e psicopedagoga Robianca Munaretti destacou-se com o pôster “Grupos Fonoaudiológicos para Crianças com Dificuldades na Aquisição da Linguagem e suas Famílias”, que é desenvolvido em pelo menos 10 grupos em Unidades de Estratégia de Saúde da Família. “O trabalho vai além do atendimento, e envolve as famílias, no desenvolvimento da criança”, acrescentou. O evento em que houve a premiação reuniu as especialidades de fisioterapia, fonoaudiologia, nutrição, psicologia, serviço social e terapia ocupacional contando com mais de 100 e a presença de palestrantes renomados do meio acadêmico civil. Jesiel B. Saldanha www.canoas.rs.gov.br |
domingo, 14 de agosto de 2011
Atraso na fala não significa problemas futuros
Problemas comportamentais surgem apenas por volta dos 2 anos e tendem a desaparecer pouco depois
New York Times | 12/07/2011 16:41
Foto: Getty Images
Atrasos na fala: problemas comportamentais são causados pela frustração ao tentar se comunicar, mas desaparecem logo
O estudo foi publicado online no dia 4 na revista “Pediatrics”. As crianças faziam parte do Grupo de Estudo de Gestação do Oeste da Austrália. 1.245 não apresentavam atraso na fala – elas usavam pelo menos 50 palavras e podiam unir duas ou três delas para formar uma frase – e 142 não haviam atingido essa marca.
As mães de todas elas estiveram grávidas entre 1989 e 1991, quando passaram a fazer parte do estudo. As crianças foram acompanhas até completarem 17 anos.
Aos 2 anos, as crianças que possuíam atraso de linguagem estavam mais propensas a ter problemas de comportamento. Porém, havia uma diferença entre os grupos com idades de 5, 8, 10, 14 e 17 anos.
O principal autor do artigo foi Andrew J.O. Whitehouse, do Instituto Telethon de Investigação da Saúde Infantil, em Perth. Ele sugeriu que a origem dos problemas comportamentais delas estava no sentimento de frustração por não conseguir se comunicar. “Quando as crianças com atraso na fala alcançam a marca de linguagem da maioria das crianças, os problemas comportamentais e emocionais deixam de se manifestar”, afirmou.
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