quarta-feira, 26 de maio de 2010

Um olhar clínico (psicopedagógico) sobre as dificuldades de leitura e escrita



Um olhar clínico não é um olhar que acontece só no meio médico, no espaço de uma clínica, como se pensava antigamente,  e sim é decorrente de um método clínico de observação da realidade.Embora a palavra “clínica” tenha sua origem no termo grego kliné, que quer dizer leito no qual se observava ou se atendia um paciente, e tenha sido apropriada pela medicina durante muitos anos, o Método Clínico hoje utilizado pela Psicopedagogia foi ressignificado através da sua história, a mesma o utiliza como instrumento de investigação na coleta de dados para o diagnostico e intervenção das dificuldades de aprendizagem apresentadas por seus clientes. 

A Psicopedagogia, portanto, herdou um método clínico que lhe permite intervir junto a um sujeito ou a um grupo de sujeitos que aprendem, em situação terapêutica ou educacional, considerando o dito e o não dito, a ação do sujeito sobre o objeto de aprendizagem, que não é paciente e sim agente, e as conclusões que ele pode retirar desta ação. Portanto, o olhar clínico em Psicopedagogia, é um olhar que tem a intenção de perceber um sujeito que aprende, de forma inteira, em relação com os outros sujeitos, com a cultura, com a história, com os objetos de aprendizagem e com as normas estabelecidas no contexto em que vive. Este Olhar Clínico se volta para alguém que está pretendendo evitar ou superar dificuldades com relação à aprendizagem. As dificuldades com a aprendizagem podem decorrer de diversas causas, e os sintomas que aparecem, quase sempre, estão ligados ao uso do instrumental simbólico, cujo domínio nos permite aprender todos os conhecimentos do mundo – a linguagem escrita, oral, corporal, cartográfica, matemática, visual, informática etc.Estas dificuldades, na maioria das vezes, não são dificuldades que se localizam dentro de um sujeito, e sim na relação entre ele e o conhecimento ou entre ele e aqueles que ensinam..

Como vimos, o objeto central de estudo da psicopedagogia está estruturado em torno do processo de aprendizagem humana: seus padrões evolutivos normais e patológicos, bem como a influência do meio no seu desenvolvimento. Pela complexidade do seu objeto de estudo, são imprescindíveis conhecimentos  específicos de diversas teorias, dentre elas podemos destacar as contribuições da psicanálise  que se encarrega do mundo inconsciente; da pedagogia  como ciência da educação que procura estabelecer  com precisão como organizar a ação do ato de aprender , como também que procedimentos lançar mão;  da psicologia que  é responsável por observar o comportamento do sujeito  nas relações grupais , familiares e institucionais. Por ser a psicopedagogia um campo de estudo interdisciplinar, outras ciências, além das citadas, vêm contribuir para desvelar o complexo  objeto de estudo da psicopedagogia – o aprender .

Para Fernandez (1991,p.47)
O ser humano para aprender deve pôr em jogo: seu organismo individual herdado,  seu corpo construído especularmente, sua inteligência autoconstruída interacionalmente e a arquitetura do desejo, desejo que é sempre desejo do desejo de outros. 
Portanto, percebemos, a partir da citação acima, que a Psicopedagogia procura  estudar e desenvolver uma teoria que vá além do perceptível ao olhar de um profissional da educação  ou outro profissional. Aquela estudiosa faz uma distinção entre organismo e corpo. Organismo para ela é toda a estrutura física do ser humano, já o corpo é a imagem que se tem do físico, que é construída a partir da relação com o outro. “O organismo bem–estruturado é uma boa base para aprendizagem, e as perturbações que posa sofrer condicionam dificuldades nesse processo.” 
Fernàndez explicita seus pressupostos argumentando:
Desde do princípio até o fim, a aprendizagem passa pelo corpo.(...) o corpo coordena e a coordenação resulta em prazer de domínio. (...) A apropriação do conhecimento implica no domínio do objeto, sua corporização  prática em ações ou em imagens que necessariamente resultam em prazer corporal.(1991, p.59)

Em relação ao desejo e à inteligência, a teoria Psicopedagógica  difere em primeiro momento à vontade do desejo, para a mesma o desejo é algo mais que à vontade, e está relacionada intimamente à sexualidade do indivíduo, ou seja, algo inconsciente.
Os estudos psicanalíticos contribuíram significativamente para explicar o nível de desejo imbricado no ato de aprender.
Ainda de acordo com a psicopedagoga Fernàndez:
Para psicanálise os processos inteligentes surgem a partir de uma derivação da energia sexual para o objeto diferente e socialmente aceito. Quando a criança por volta de 5 – 7 anos entra no período de latência, a curiosidade sexual infantil típica da etapa edípica se reprime e se sublima. A criança transforma a curiosidade sexual prévia, dirigindo-se para objetos de conhecimento socialmente aceitos. Esta derivação da energia motiva o interesse na investigação  - segundo a psicanálise- e implica, então, uma repressão exitosa e uma derivação da energia sexual.  (2001)  


Corroborando com a análise  de Fernàndez acerca da subjetividade imbuída  no processo de aprendizagem, Trinca & Barone (1996, p.50) conceitua:
(...) em face das primeiras experiências de aprendizagem escolar, a criança atualiza e expressa sua maneira pessoal e particular de lidar com a realidade, maneira esta que é reedição das historias de suas relações passadas. Com isto, a própria situação de aprendizagem coloca a criança, novamente, todas as questões vividas anteriormente em seus primeiros relacionamentos. Se aquelas crianças que puderam resolver mais satisfatoriamente suas questões narcísicas e edípicas, e por isso desenvolver melhor sua capacidade de simbolização,  podem vivenciar mais tranqüilamente o processo de aprendizagem escolar, o mesmo não acontece com aquelas que ainda estão às voltas com tais questões, e que atualizam, repetem e expressam seus conflitos inconscientemente na relação de aprendizagem.
A concepção de inteligência para a Psicopedagogia está fundamentada na teoria de Piaget, baseada no desenvolvimento cognitivo que se dá pela assimilação do objeto do conhecimento e as capacidades do sujeito para acomodar as estruturas diante do objeto assimilado.
Para Jean Piaget (apud FONTANA, 1985), a criança tem uma forma própria e ativa de raciocinar e de aprender, que evolui, por estágios, até a maturidade intelectual. Elas não podem ser comparadas a um adulto, seus erros apenas caracterizam uma forma particular de pensar.

A inteligência humana se desenvolve baseado em três correntes teóricas: o empirismo, o racionalismo e o construtivismo.
O empirismo é uma concepção teórica que parte do princípio de que o desenvolvimento da inteligência é determinado pelo meio ambiente e não pelo sujeito, ou seja, de fora para dentro. A idéia é que o ser humano não nasce inteligente, mas passivamente submetido às forças do meio, que provocam suas reações, a satisfatórias são incorporadas e as insatisfatórias tendem a serem eliminadas, assim, o desenvolvimento intelectual pode ser totalmente modelado de fora, pois a força que o determina se encontra nos estímulos externos e não no indivíduo.
A concepção teórica do racionalismo parte do princípio de que o desenvolvimento da inteligência é determinado pelo indivíduo e não pelo meio, sendo concebida de dentro para fora. A idéia é que o ser humano já nasce com a inteligência pré-moldada. A lógica seria uma capacidade inata do homem. À medida que o ser humano amadurece, ele vai reorganizando sua inteligência pelas percepções que tem da realidade, e essas percepções dependem de capacidades que são inerentes ao indivíduo e não dos estímulos externos.
Na concepção teórica construtivista, que tem como precursor Piaget, o princípio é que o desenvolvimento da inteligência é determinado pelas ações mútuas entre o indivíduo e o meio. A idéia é que o homem não nasce inteligente, mas também não é passivo sob a influência do meio. Ao contrário, responde aos estímulos externos agindo sobre eles para construir e organizar o seu próprio conhecimento, de forma cada vez mais elaborada.
Na concepção piagetiana, a vida mental é, em essência, “auto-regulação”, onde o indivíduo vive em constante desequilíbrio, buscando se reequilibrar, e isso é feito por adaptação e por organização. A adaptação tem duas formas básicas: a assimilação e a acomodação. Na assimilação o indivíduo usa as estruturas psíquicas que já possui. Se elas não forem suficientes, é preciso construir novas estruturas. A acomodação consiste em acomodar aquilo que foi assimilado e reagir a um desequilíbrio para uma nova aprendizagem. Piaget (2004), diz que na “assimilação e na acomodação” se pode reconhecer a correspondência prática daquilo que serão mais tarde a dedução e a experiência, concluindo que a atividade da mente é a pressão da realidade de cada indivíduo no processo de novas aprendizagens.
Sabe-se que o indivíduo constrói e reconstrói continuamente as estruturas que o tornam cada vez mais apto ao equilíbrio. Mas essas construções seguem um padrão em idades mais ou menos determinado. São os estágios, de desenvolvimento cognitivo que se dividem em vários subestágios.

Sensório-motor (0 a 2 anos):
A partir de reflexos neurológicos básicos, o bebê começa a construir esquemas de ação para assimilar o meio. A inteligência é prática, as noções de espaço e tempo, por exemplo, são construídos pela ação. O contato com o meio é direto e imediato, sem representação ou pensamento.
Pré-operatório (2 a 7 anos)
A criança se torna capaz de representar mentalmente pessoas e situações. Já pode agir por simulação. Sua percepção é global, sem discriminar detalhes: deixa-se levar pela aparência, sem relacionar aspectos. É centrada em si mesma, pois não consegue colocar-se abstratamente no lugar do outro.
Operatório-concreto (7 a 11 anos)
Nessa fase, a criança já é capaz de relacionar diferentes aspectos e abstrair dados da realidade. Não se limita a uma representação imediata, mas ainda depende do mundo concreto para chegar à abstração. Desenvolve também a capacidade de refazer um trajeto mental, voltando ao ponto inicial de uma situação.
Lógico-formal (12 anos em diante)
A representação agora permite a abstração total. A criança não se limita mais a representação imediata nem somente às relações previamente existentes, mas é capaz de pensar em todas as relações possíveis logicamente.
Ainda respaldada na teoria Piagetina, a psicopedagogia utilizou, os estudos do suíço, no que diz respeito ao equilíbrio para estruturar o conhecimento que Piaget chamou de assimilação e acomodação, como citado anteriormente, e desenvolveu terminologias para identificar os processos  de aprendizagem patológicos como: hipoacomodação, hiperacomodação, hiperassimilação e hipoassimilação.
A leitura e a escrita, por fazer parte da aprendizagem humana , fazem parte dos estudos psicopedagógicos.

Como confirma Barone( 1993,p.38)
Penso que a criança, frente às primeiras experiências de aprendizagem da leitura e da escrita, revive, repete e expressa sua maneira esta que é a reedição da historia de suas relações passadas. Assim, as experiências  de fracasso nesta aprendizagem, alem de terem sido influenciadas por esta condição pessoal da criança, infligem um ataque a seu narcisismo, ao qual a criança reage de diferentes maneiras,mas sempre segundo suas possibilidades, a fim de preservar ou recuperar a perfeição narcísica perdida.  
Contata-se, porém, que estamos longe de dar conta da complexidade e das  diferentes nuances  que é a aquisição das habilidades da leitura e da  escrita. Não podemos negar a contribuição de muitas teorias que  defendem, como condição  necessária   habilidades perceptivas motoras, lingüísticas, sintáticas  e morfológicas.
REFERÊNCIAS:
FERNÁNDEZ. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artmed,1991.
______. Os idiomas do aprendente: uma análise de modalidades ensinantes em famílias, escolas e meios de comunicção, Porto Alegre: Artmed,2001.
FONTANA, Roseli. Psicologia e trabalho pedagógico. São Paulo: Atual, 1985.
PIAGET, Jean. Seis estudos de psicologia. 24 ed. Rio de Janeiro: Florense Universitária, 2004.
TRINCA, Walter; BARONE, Leda Maria Codeço. O procedimento de desenhos –estórias na avaliação das dificuldades de aprendizagem. In: Avaliação Psicopedagógica  da criança de sete a onze anos.Petrópolis,RJ: Vozes,1996.


Adriana Francisca de Medeiros - Professora da rede estadual e municipal do Estado do Rio Grande do Norte;  pedagoga; especialista em Psicopedagogia pela Universidade Vale do Jaguaribe; Educação Infantil pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e mestranda em educação – UFRN

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ocorreu um erro neste gadget