quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A gagueira na real

IARA BIDERMAN
DE SÃO PAULO

George 6º, rei da Inglaterra entre 1936 e 1952, enfrentou sucessão complicada,
avanço do nazismo e decadência do Império Britânico. Mas o fio condutor de "O
Discurso do Rei", que estreou ontem, é sua luta contra a gagueira.
Como toda ficção baseada em fatos reais, o filme já é alvo de críticas em
relação à sua veracidade histórica. A questão pessoal que rege a narrativa, a
gagueira, também levanta poeira.

PSICOLOGIA X BIOLOGIA
O ruído na comunicação é a ênfase que o roteiro dá aos aspectos psicológicos
relacionados ao distúrbio.
A maioria das pessoas, segundo especialistas, acredita que traumas de infância
são o que faz uma pessoa gaguejar, o que não é verdade. "Hoje, sabemos que a
causa está em genes que interferem na formação e no funcionamento de áreas
cerebrais que gerenciam a emissão da fala", diz o neurologista Marco Antônio
Arruda, da Academia Brasileira de Neurologia.
Os primeiros genes responsáveis pela gagueira foram descobertos há um ano.
"A ciência conhece bem síndromes complicadas que atingem menos de 0,02% da
população, mas estuda pouco a gagueira", lamenta a fonoaudióloga Anelise
Junqueira Bohnen , do IBF (Instituto Brasileiro de Fluência).
É por isso que ela, como outros militantes da causa, comemora o sucesso de "O
Discurso do Rei", com 12 indicações ao Oscar. "Gagueira não é assunto. O "Rei"
coloca o tema na conversa do dia."
Segundo Ignês Maia Ribeiro , presidente do IBF, o filme mostra como a gagueira
era entendida e tratada na época. "O trabalho de Logue [o terapeuta do rei],
autodidata e heterodoxo, foi pioneiro. Ele ia além dos trabalhos com oratória
de seu tempo. Já usava algumas técnicas de relaxamento e suavização da fala que
usamos hoje."

NOVAS POSSIBILIDADES
As descobertas sobre bases genéticas da gagueira e funcionamento cerebral podem
trazer novas formas de tratar o problema que, no Brasil, é crônico para cerca
de 2 milhões de pessoas, segundo estimativa de Ribeiro.
O neurologista Marco Antônio Arruda conta que estudos controlados com um
antagonista da dopamina (medicamento que anula a ação do neurotransmissor)
estão mostrando bons resultados.
Os remédios ainda não chegaram, mas novas tecnologias já foram incorporadas aos
tratamentos.
Uma das ferramentas é o "Speech Easy", aparelho que faz a pessoa ouvir a
própria voz com um pequeno atraso. É o "efeito coro". Em situações como recitar
em coro ou cantar, é comum a pessoa não gaguejar, porque aciona circuitos
cerebrais diferentes dos usados na fala comum.
Outros recursos são aplicativos para iPad e iPhone.
Barbara Fernandes, fonoaudióloga brasileira que mora nos EUA, criou o "Fluency
Tracker", programa que mapeia as situações relacionadas à gagueira para que o
paciente identifique em que momento precisa usar as técnicas aprendidas em
consultório, além de acompanhar o seu progresso no dia a dia.
A versão em inglês do aplicativo já está à venda na App Store por US$ 9,99
(cerca de R$ 16,65). "Vamos lançar agora a versão em espanhol e, daqui a dois
meses, em português", diz Fernandes.
 
Folha de São Paulo - 12/02/2011

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