terça-feira, 24 de maio de 2011

Deixem em paz a nossa língua

Lya Luft

Nasci com essa paixão, esse encantamento pelas palavras. Quando pequena,
repetia para mim mesma as que achava mais bonitas: pareciam caramelos na
minha boca. Colecionava mentalmente as mais doces, como translúcido,
magnólia, borbulha, libélula, e não sei quais outras. Lembro que por um
tempo detestei meu nome curtinho e sem graça: pedia a minha mãe que o
trocasse por algo belo como Gardênia, Magnólia, Virgínia. Açucena me
fascinou quando o li no meu livro de texto no 1º ano da escola, e quis me
chamar assim. Mas eu queria muitas coisas impossíveis. Como lia muito (minha
cama era embutida em prateleiras onde, em horas de insônia, bastava estender
a mão e ter a companhia de um livro), a linguagem cedo fez parte da minha
vida como as ficções. Eu lia o que me caía nas mãos, desde gibis até
complicados volumes que eu não entendia mas pegava na biblioteca de meu pai,
e lia achando impressionante ou bonito, misterioso ou triste.

Comecei a trabalhar com a nossa língua bastante cedo, traduzindo obras
literárias do inglês e do alemão. Mais ou menos nessa época, início dos 20
anos, passei a escrever crônica de jornal, e poemas avulsos, que aos poucos
foram sendo publicados em livros, até finalmente iniciar uma carreira de
ficcionista já beirando os 40 anos. Antes disso fiz mestrado em linguística,
e fui professora dessa matéria em uma faculdade particular durante dez anos.
Não escrevo isso para dar meu currículo, mas para dizer que não desconheço o
assunto: ler e escrever são para mim tão naturais quanto respirar, e conheço
alguma teoria. Nosso idioma, o português do Brasil, me é íntimo, querido,
respeitado, amado - e está em mim como a própria alma. Aliás, a psique se
reconhece, se analisa e se expressa através das palavras.

De vez em quando, inventa-se alguma reforma para essa sutil, forte e
independente engrenagem. Passei por várias nesses muitos anos, as
ortográficas em geral pífias, algumas muito malfeitas. Porém a gente se
adapta, até por razões de ofício. Mas, por favor, não tentem defender nosso
português de estrangeirismos: a língua não precisa ser defendida. Ela é
soberana. Ela é flexível. Ela é viva. Nenhum gramático ou legislador,
brilhante ou tacanho, poderá botar essa dama em camisa de força, nem a
conter num regime policialesco. Ela continuará sua trajetória, talvez
sacudindo a cabeça diante das nossas desajeitadas tentativas de controlá-la.
Como dirá qualquer bom professor de português, ou qualquer linguista
dedicado, estudioso, uma parcela imensa dos termos que hoje usamos, que por
muito usados pela classe culta foram dicionarizados - o dicionário sempre
corre atrás da realidade -, começou como estrangeirismo. Não preciso citar,
mas cito, garagem do francês, futebol do inglês, coquetel da mesma forma. A
língua incorpora esses termos se são úteis, e os adapta ao seu sistema.
Botou o “m” final em miragem, por exemplo, porque no nosso sistema as
palavras não terminam em “age”.

Muitos termos não podem ser traduzidos: quem diz isso é esta velha tradutora
que dedicou a isso milhares de horas de sua vida. E não é possível formar
frases decentes, fluidas, claras, expressivas como devem ser as frases, se a
cada “estrangeirismo” tivermos de fazer um rodeio, uma explicação da palavra
intraduzível. Isso, além do mais, nos colocaria na rabeira do mundo
civilizado e globalizado, onde palavras - como objetos de bom uso - circulam
de um lado para outro, pousam aqui ou ali, adaptam-se, ou simplesmente
passam. Quando não passam, é porque são necessárias, e acabam colocadas
entre aspas ou em itálico. Línguas altamente civilizadas usam
“estrangeirismos” livremente, sem culpa nem preconceito, como fator de
expressividade. Isso nem as humilhou, nem as perverteu: ficaram
enriquecidas. Nós é que precisamos lutar contra uma onda terceiro-mundista,
uma postura de inferioridade que nos faz gastar energias que poderiam ser
aplicadas em algo urgente como um orçamento vinte vezes maior para a
educação do nosso povo.

Fonte: Revista Veja, 11/05/2011, p. 26

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