domingo, 17 de outubro de 2010

22 de outubro - Dia Internacional de Atenção à Gagueira

Dinâmica familiar na gagueira

Ter uma criança que gagueja já é suficientemente difícil para qualquer pai ou mãe.
Fazê-los sentirem-se culpados por isso só contribui para piorar a situação.

Anelise Junqueira Bohnen em seu livro Sobre a Gagueira (página 64).

Os pais de pessoas que gaguejam são alvo de diversos estereótipos sociais. Seriam pais dominadores, superprotetores, com altas expectativas, perfeccionistas, com sentimentos de rejeição e avaliações indesejáveis sobre a personalidade do filho que gagueja. Este estereótipo provém da teoria diagnosogênica da gagueira proposta inicialmente por Wendell Johnson. A teoria diagnosogênica teve início na década de 1940 e tinha como hipótese a existência de um ambiente familiar pressionador, onde os pais estariam altamente sensibilizados em relação à fala dos filhos. Isto devido à história familial para gagueira ou por serem pais guiados por atitudes perfeccionistas e por altos padrões de exigência para si próprios e para seus filhos. Com esta atmosfera familiar como pano de fundo, Johnson acreditava que chamar a atenção da criança para sua fala seria a causa imediata da gagueira, fazendo com que hesitações comuns se transformassem em gagueira. Uma vez que era atribuída aos pais grande parte da responsabilidade pela gagueira, eles eram o alvo principal da terapia de aconselhamento, a qual tinha o objetivo de evitar que a criança se tornasse consciente das hesitações e de modificar a atitudes pressionadoras dos pais.
Felizmente os avanços científicas já mostraram que os pais não são os responsáveis pela gagueira do filho. Entretanto, determinadas atitudes familiares podem piorar a gagueira. Por isso, é extremamente importante que os pais adotem atitudes que promovam a fluência (veja as Orientações para pais: gagueira infantil).

Em que tipo de família cresce uma pessoa que gagueja?

O dado mais sólido em relação às diferenças entre famílias com e sem pessoas que gaguejam está na história familial para gagueira: 55% das pessoas que gaguejam têm pais, irmãos, filhos, tios, primos, avós e/ou netos com gagueira.
Crianças que gaguejam têm maior probabilidade de crescerem em:
- Famílias menos harmoniosas, isto é, pais de crianças que gaguejam costumam estar menos satisfeitos com os comportamentos do cônjuge, relatando maior probabilidade de haver um ambiente familiar tenso e desfavorável.
- Famílias menos sociáveis.
- Famílias menos íntimas, isto é, os familiares passam pouco tempo em atividades conjuntas (como brincadeiras e passeios) e possuem pouco tempo para desfrutar da companhia dos outros membros da família.
- Famílias com pais de menor escolaridade.
Essas características não seriam causadoras da gagueira: seriam fatores complicadores, que aumentariam as condições que levam às dificuldades de fluência, ao pior desempenho escolar e às tendências ao retraimento.
O que os pais acham de seu filho que gagueja?
Pesquisas indicam que os pais apresentam fortes tendências a adotar opiniões menos favoráveis em relação ao filho que gagueja. De forma geral, os pais vêem seu filho que gagueja como nervoso, irritado, teimoso, imaturo, com complexo de inferioridade e pouco sociável. Além disso, os pais acreditam que a gagueira ocorre devido a esses traços de personalidade. É importante deixar claro que essas opiniões não causam a gagueira do filho, mas contribuem para piorar a gagueira e as conseqüências emocionais que advêm dela.
O que o filho que gagueja acha de seus pais?
Pesquisas indicam que as pessoas que gaguejam sentem-se distantes dos pais, acham que recebem pouco afeto, que desapontam seus pais, que têm pais muito punitivos, não se sentem realmente aceitas e se sentem subestimadas em relação à maturidade.
Referência bibliográfica:
YAIRI, Ehud. (1997). Home environments and parent-child interaction in childhood stuttering. In: Curlee, Richard F. & Siegel, Gerald M. (eds). Nature and Treatment of Stuttering: New Directions. 2nd ed. Boston: Allyn and Bacon. p. 24-48.


Orientações para pais: gagueira infantil

Sete conselhos para ajudar a criança que gagueja
1. Fale com a criança sem pressa e com pausas freqüentes. Quando seu filho terminar de falar, espere alguns segundos antes de você começar a falar. A fala lenta e relaxada é muito mais eficaz do que criticar ou dizer: fale devagar, repita mais devagar.
2. Reduza o número de perguntas ao seu filho. As crianças falam mais livremente ao expressar suas próprias idéias ao invés de responder às perguntas dos adultos. Ao invés de fazer perguntas, faça comentários sobre o que seu filho disse, mostrando que você está prestando atenção.
3. Utilize expressões faciais e linguagem corporal para demonstrar ao seu filho que você está mais atento ao conteúdo da mensagem do que à sua forma de falar.
4. Reserve alguns minutos, todos os dias, para dar atenção ao seu filho. Deixe que ele escolha o que gostaria de fazer. Permita que ele dirija as atividades, decidindo se quer falar ou não. Quando você falar, utilize uma fala lenta, tranqüila, relaxada e com pausas freqüentes. Este momento calmo pode aumentar a auto-confiança da criança pequena, porque ela vai saber que o pai ou a mãe aprecia a sua companhia. Conforme a criança se torna mais velha, pode ser um momento em que se sente confortável para falar de seus sentimentos e experiências com o pai ou a mãe.
5. Auxilie todos os membros da família a aprender a escutar e esperar sua vez de falar. Para as crianças, principalmente para as que gaguejam, é mais fácil falar quando há poucas interrupções e quando contam com a atenção do ouvinte.
6. Observe como você se relaciona com seu filho. Sempre que puder, mostre que você está prestando atenção ao que ele está falando e que ele pode utilizar o tempo que precisar para falar. Procure evitar a crítica, o falar rápido, as interrupções e as perguntas freqüentes.
7. Acima de tudo, faça seu filho saber que você o aceita como ele é. O mais importante para o seu filho será o seu apoio, quer ele gagueje ou não.
Fonte: 7 Ways to Help the Child Who Stutters
Autores: Barry Guitar & Edward G. Conture
Link original: www.stutteringhelp.org/Default.aspx?tabid=38
Tradução: Ignês Maia Ribeiro. Revisão: Sandra Merlo.

* Ignês Maia Ribeiro é associada fundadora e diretora presidente do Instituto Brasileiro de Fluência - IBF.

* Sandra Merlo é associada fundadora e diretora científica do Instituto Brasileiro de Fluência - IBF.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ocorreu um erro neste gadget